Pilotos deveriam poder cochilar no cockpit, afirmam especialistas

Após a polêmica gerada recentemente devido a um vídeo que mostra um comandante dormindo sentado no cockpit de um avião comercial, uma discussão veio à tona sobre a aprovação da “soneca” como um meio de aumentar a segurança do voo.

Fadiga no cockpit continua a ser uma ameaça para a indústria da aviação em todo o mundo. Alguns especialistas dizem que permitir que os pilotos durmam enquanto estão nos controles do cockpit é parte da resposta a essa ameaça. E muitos pilotos concordam.

São frequentes os casos de pilotos de linha aérea esgotados. Um exemplo extremo aconteceu em 2008, quando um piloto e um co-piloto dormiram nos controles, errando o pouso no Havaí. Ambos ganharam suspensões de licença e foram demitidos.

Mais recentemente, pilotos cansados ​​chegaram muito perto de pousar em cima de outro avião no Aeroporto Internacional de São Francisco em 2017.

Scott Winter, professor assistente de estudos de pós-graduação, e Stephen Rice, professor de fatores humanos, ambos da Embry-Riddle Aeronautical University, na Flórida, defenderam as sonecas no meio do voo.

O setor aéreo e a agência reguladora dos EUA, a FAA, tomaram medidas para reduzir a fadiga do piloto. Mas muitos pilotos ainda continuam preocupados que dois pilotos sejam obrigados a permanecer acordados e alertas durante todo o voo enquanto um ou ambos estejam lidando com sintomas de fadiga.

Uma sugestão dos especialistas é deixar os pilotos tirarem breves cochilos no cockpit. Mas, segundo pesquisa do DailyMail, o público americano está cauteloso com essa ideia. Você se sentiria à vontade a bordo com a liberação dessa prática?

A fadiga do piloto pode ser difícil de prever ou diagnosticar, especialmente porque em uma operação comum os pilotos cansados ​​geralmente conseguem decolar, voar e pousar com segurança.

Mas quando algo dá errado é que surgem as deficiências causadas pela fadiga. E os investigadores de acidentes podem ter pouca evidência de fadiga, exceto, talvez, o som de alguém bocejando ou comentando sobre sono nas gravações de áudio da cabine.

Regras de descanso

Em 2014, a FAA impôs as primeiras novas regras de descanso de piloto em 60 anos, limitando o tempo de serviço em geral e as horas de voo por dia, dependendo de quando o turno de um piloto começa.

As regras também estabeleceram um processo pelo qual os pilotos podem relatar fadiga sem serem disciplinados por suas companhias aéreas ou pelo governo.

É amplamente sabido que um cochilo curto pode melhorar o estado de alerta de uma pessoa. Alguns aviões, como aqueles geralmente usados ​​em voos internacionais longos, têm camas que seus pilotos e outros tripulantes podem usar, mas aviões menores não têm o espaço.

Apenas voos com mais de oito horas exigem que um piloto adicional esteja a bordo para que um piloto de cada vez possa revezar para descansar.

Em voos mais curtos, os regulamentos definem que ambos os pilotos permaneçam alertas todo o tempo, sem qualquer chance de descanso durante o voo.

Alguns países, incluindo o Canadá e a Austrália, permitem que os pilotos durmam no cockpit. No exemplo do vídeo da China, o piloto enfrentou medidas disciplinares por cochilar no cockpit.

O procedimento oficial para permitir que os pilotos cochilem no cockpit é chamado de “descanso controlado em posição”, ou CRIP na sigla em inglês. O CRIP estabeleceu políticas e procedimentos para permitir que os pilotos descansem.

As regras são rigorosas. O Manual de Voo da Air Canada, por exemplo, diz que um piloto que quer descansar deve notificar o co-piloto e um comissário de bordo.

O piloto pode dormir por não mais do que 40 minutos e deve acordar pelo menos meia hora antes da descida para o pouso. E deve usar os primeiros 15 minutos após o cochilo para despertar completamente, durante os quais não pode retomar o voo, a menos que precise ajudar a lidar com uma emergência.

Opiniões dos consumidores

O DailyMail realizou uma pesquisa para saber o que o público pensa sobre deixar que os pilotos usem o CRIP para cochilar no cockpit.

Em geral, as pessoas estão menos dispostas a voar quando sabem que um piloto pode dormir nos controles. E as mulheres estão menos dispostas do que os homens.

Na pesquisa ficou constatado que essa indisposição é atribuída principalmente ao medo, porque os passageiros não entendem os benefícios dos cochilos.

Dessa forma, é provável que conscientizar as pessoas sobre como os pilotos mais descansados ​​tornam um voo mais seguro pode ajudar mais pessoas a se sentirem confortáveis ​​em voar em um avião onde o procedimento CRIP é permitido.

O que os pilotos pensam?

O DailyMail também perguntou aos pilotos o que eles pensavam sobre poder descansar no cockpit durante o voo. E eles se mostraram muito mais entusiasmados, com 70% dos pilotos preferindo permitir o CRIP.

Em média, todos os participantes que completaram a pesquisa sentiram que os cochilos de 45 minutos deveriam ser aprovados, o que está diretamente relacionado aos 40 minutos sugeridos pelas evidências científicas.

Eles também reconheceram a necessidade de o piloto ficar acordado pelo menos 30 minutos antes de começar a descida para o pouso. No geral, os participantes acharam que havia poucos problemas potenciais com o CRIP e disseram que seria útil.

No entanto, alguns pilotos expressaram preocupação sobre as consequências indiretas da implementação do CRIP. As companhias aéreas, sabendo que os pilotos poderiam tirar cochilos durante o voo, poderiam se sentir tentadas a impor calendários de voo mais rigorosos que eliminariam quaisquer benefícios derivados do CRIP.

Por fim, os participantes comentaram como esse procedimento já está sendo usado com sucesso por operadoras internacionais como a Air Canada e a Qantas.

Até agora, as equipes dessas empresas não registraram reclamações generalizadas sobre abuso de práticas, e nenhum dos entrevistados da pesquisa que voam para as companhias aéreas se queixou de problemas em potencial.

Informações pela DailyMail.

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.