Pintura da Pepsi obrigava Concorde a voar mais devagar

Para reerguer sua participação de mercado, a Pepsi procurou uma maneira espetacular e inovadora de anunciar seu novo estilo de marca e aumentar suas vendas.

Foto de Richard Vandervord

As marcas geralmente encomendam veículos especiais para promover um novo produto ou causar uma impressão de qualidade. Em 1996, durante um grandioso processo de reposicionamento de marca, a Pepsi fechou um acordo com a Air France para criar um instrumento de marketing verdadeiramente único e inspirador usando um dos poucos Concordes existentes.

Pode ser Pepsi?

Em meados dos anos 1990, as latas de Pepsi eram principalmente vermelhas e azuis. Com o objetivo de definitivamente contrastar com a Coca Cola, a empresa decidiu investir mais de 3 bilhões de dólares num projeto grandioso de reposicionamento da marca e lançamento de embalagens, desta vez na cor Azul.

Uma das ações mais emblemáticas desse período foi a pintura do Concorde F-BTSD, transformando-o numa “lata de refrigerante”. Embora o valor total pago pelo privilégio de exibir suas cores corporativas no Concorde nunca tenha sido divulgado, só os trabalhos de pintura de aeronaves como o Boeing 767 podem custar mais de US$ 150.000. 

Limite de velocidade devido à pintura

Concordes operavam em ambientes extremos em altitudes de até 60.000 pés e velocidades ​de cruzeiro de 1.350 mph (Mach 2,04), sujeitando a fuselagem da aeronave a imensas pressões durante o voo supersônico. Devido ao aquecimento da estrutura da aeronave, os Concordes se estendiam de 15 a 30 cm durante o cruzeiro em alta velocidade.

Seja voando nas cores da British Airways ou Air France, o Concorde foi homologado para usar apenas esquemas visuais baseado em tinta branca de alta refletividade, especialmente formulado e com logotipos mínimos para dissipar o máximo de calor possível. 

F-BTSD Air France [Pepsi]  Concorde at Dublin

A pintura azul somente foi viabilizada após uma série de estudos e restrições por parte do fabricante. O Concorde da Pepsi não conseguiria sustentar a velocidade de Mach 2 por mais de 20 minutos, pois a tinta azul não refletia nem irradiava calor com a mesma eficiência que o branco padrão. 

Para evitar problemas térmicos, foram autorizadas velocidades máximas de até Mach 1.7. As asas em delta tiveram que ser mantidas na cor branca para não afetar a temperatura do combustível armazenado, embora o logo da Pepsi tenha sido aplicado na superfície superior.

200 litros de tinta e um tour de 10 dias

Os trabalhadores gastaram 2.000 horas e usaram 200 litros de tinta azul para concluir a tarefa de repintar a aeronave no esquema da Pepsi, que foi concluída nas instalações de manutenção da Air France no aeroporto de Paris – Orly, em sigilo estrito, com trabalhadores ocultando a pintura concluída, cobrindo o jato em papel de embrulho marrom.

Em seguida, o jato voou para o aeroporto de Gatwick, em Londres, sob a escuridão da noite de 31 de março de 1996 e, ao pousar, foi prontamente rebocado para o hangar onde a empresa revelaria a nova marca. O vídeo abaixo mostra um pouco de todo esse processo de pintura e preparação da aeronave.

Em 2 de abril de 1996, centenas de jornalistas de 40 países cobriram a grande revelação da nova marca aplicada no Concorde, que contou com as supermodelos Claudia Schiffer e Cindy Crawford, bem como o fenômeno do tênis Andre Agassi. Nas duas semanas seguintes, a aeronave completou um tour de 16 voos por 10 cidades pela Europa e Oriente Médio, usando a pintura exclusiva, antes de retornar ao serviço nas cores regulares da Air France.

O tour seguiu o seguinte roteiro:
31 de março Paris – Londres
– 03 de abril Londres -Dublin
– 04 de abril Dublin – Estocolmo
– 04 de abril Estocolmo – Paris
06 de abril Paris – Beirute
– 07 de abril Beirute – Dubai
– 07 de abril Dubai – Jeddah
– 08 de abril Jeddah – Cairo
– 08 de abril Cairo – Milão
– 09 de abril Milão – Madri
– 09 de abril Madri – Paris

Tour do Concorde da Pepsi

A aeronave em si é historicamente significativa por várias outras razões. Além de usar brevemente o logo da Pepsi, esse foi um dos exemplares finais do Concorde e se beneficiou de técnicas avançadas de construção, como rebites de titânio ​​para “aumentar a leveza”, totalizando 2.050 libras em economia total de peso em comparação com os primeiros.

Atualmente, aeronave agora reside em exposição permanente no Museu do Ar e do Espaço em Le Bourget, França.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.