Por que a Boeing fez uma versão especial do 707 só para a Qantas?

Foto por Qantas Founders Museum

Indiscutivelmente, o Boeing 707 foi uma aeronave que marcou época, dos quais a fabricante americana construiu 865 unidades entre os anos de 1958 e 1979. Nesse ínterim, houve vários modelos, mas uma peculiaridade pouco conhecida é que uma dessas versões foi construída exclusivamente para a australiana Qantas.

No total, foram construídos apenas sete jatos especiais para a Qantas, a partir de 1959, uma época em que a empresa de bandeira australiana era conhecida como Qantas Empire Airways ou QEA. 

A origem do modelo

Em 1950, o engenheiro de projetos da Qantas, Dr. Ron Yates, buscava uma aeronave com melhor desempenho para as rotas transoceânicas da companhia, já que os Super Constellation não se mostravam as aeronaves mais adequadas, embora sua versatilidade.

Precisando urgentemente modernizar sua frota, a Qantas tinha como primeira opção natural o L-1649A, uma versão modernizada do Super Constellation, mesmo que ele não entregasse a performance que a companhia aérea australiana desejava naquele momento.

Seria, inclusive, uma escolha mais óbvia devido à proximidade da aérea com a fabricante norte-americana. No entanto, um comitê interno acabou vetando o projeto, alegando que era hora de uma transformação de maior ruptura. Liderada por Scotty Allen, a empresa acabou se inclinando ao projeto mais recente da Boeing, o 707.

Era o início da era dos jatos comerciais modernos e o Boeing 707 rapidamente ganhava espaço por sua confiabilidade, sendo conhecido como o primeiro avião a jato “viável” do mundo. Para a Qantas, era como se houvesse descoberto uma “galinha dos ovos de ouro”, que lhe permitiria dobrar a capacidade de passageiros, além de voar mais rápido.

Por si só, o projeto trouxe a ruptura que a Qantas estava esperando, no entanto ainda faltava um detalhe: ligar suas longínquas terras com o resto do mundo talvez requeresse um avião que conseguisse voar ainda mais longe.

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A reunião com a Boeing

Uma reunião foi chamada com a Boeing para discutir os desafios da localização da Austrália e as rotas desejadas.

Depois de longas conversas, a Boeing concordou em oferecer uma versão menor do Boeing 707, que proporcionaria um maior alcance. Essa variante teria 39,01 metros de comprimento, em vez dos 44,07 metros do 707-100 padrão, além de modificações em relação aos motores e asas para maior sustentação.

Com esse avião, a Qantas não mais necessitaria fazer uma parada de reabastecimento nas Ilhas Fiji e os motores seriam mais potentes do que os Pratt & Whitney JT3C-6 que equipavam as máquinas da época, permitindo operações em pistas mais curtas ou em localidades mais quentes da zona do Pacífico.

A variante do 707 destinada à Qantas recebeu a designação de Boeing 707-138.

Aqui vale um esclarecimento. Na verdade, o código 38 é o “código de cliente” que a Qantas possui junto à Boeing, portanto todos seus aviões costumam sair de fábrica com o “38” no nome do modelo. Com o 707, no entanto, foi diferente, já que ele, de fato, era uma aeronave única e exclusiva para a empresa.

Era do jato na Qantas

Em 1959, a companhia foi a primeira empresa fora dos Estados Unidos a voar com o Boeing 707. Em 1961, a Qantas recebeu mais quatro aeronaves e em 1964 foram entregues os dois últimos. Entre 1965 e 1969, os Boeing 707-138 foram retirados gradualmente da frota, dando lugar a uma variante maior, o Boeing 707-300C.

Para a empresa, foi um marco importante na sua história, pois nessa época conseguiu popularizar o transporte aéreo internacional e reduzir os preços das passagens. Para se ter uma ideia, o trecho entre Sidney a Londres chegou a ser 32 vezes mais caro que o valor cobrado após a utilização do 707.

Travolta

O ator norte-americano John Travolta, também conhecido por ser piloto comercial, é embaixador da Qantas e por dezenove anos teve como sua aeronave particular um dos Boeing 707-138 da companhia. Em 2017, o ator decidiu doar sua aeronave para um museu ao sul de Sidney, para onde deve seguir quando toda a documentação estiver em ordem.

Existe também outro 707-138 em exibição no Qantas Founders Museum, localizado em Longreach, na Australia.

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Carlos Ferreira
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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