Por que as companhias aéreas chinesas vendem passagens abaixo do custo e perdem bilhões?

A concorrência nos voos de e para a China saindo dos EUA tem causado grandes prejuízos para as empresas aéreas chinesas há muitos anos. Uma reportagem, finalmente, nos ajuda uma ter idéia do seu tamanho. E os números são chocantes.

Viajar para a China pode custar um trocado

Se você pensou em reservar um bilhete de ou para a Ásia, saindo dos EUA, nos últimos anos, provavelmente já reparou duas coisas: em primeiro lugar, como as tarifas são baixas e, em segundo, quantas companhias aéreas chinesas existem.

Enquanto algumas companhias aéreas foram forçadas a corresponder a essas tarifas baixas, outras operam no prejuízo propositalmente, com foco em manter a participação no mercado.

Por exemplo, hoje em dia existem voos do aeroporto de Los Angeles para mais de uma dúzia de cidades na China continental e você acha que as tarifas para uma viagem de 16.000 milhas por apenas US$ 320 na econômica.

Observe a pesquisa abaixo para voos em março de 2020, de Pequim para LAX. Dê uma atenção especial à duração do voo e os preços.

Ou então, se você quiser mais conforto e tiver um dinheiro a mais no bolso, você paga “míseros” US$ 1.700 (ou até menos) em classe executiva. A simulação abaixo mostra isso, observe os voos da Hainan e da China Southern, que voam com A350 e A380 para LAX, respectivamente. Às vezes, um voo da Emirates de São Paulo a Dubai pode custar esse mesmo valor na classe econômica.

Além disso, há coisas na política de aviação chinesa que são difíceis de entender. Uma delas é o fato de a China ter dezenas de companhias aéreas estatais competindo entre si, inclusive mas mesmas rotas.

Tudo bem que, no passado, a China tinha uma política de “uma companhia aérea, uma rota”, onde apenas uma companhia aérea chinesa podia fazer uma rota internacional, mas isso levou a todos os tipos de redes de rotas ineficientes, pois as companhias aéreas geralmente precisavam vender itinerários com duas a três conexões e duração de muitas horas, tornando o processo ineficientes. Mas a quantidade atual é alarmante.

Então, por que isso acontece e como estão essas rotas financeiramente?

Linhas aéreas chinesas perdem bilhões

Durante o recente Fórum Internacional da China sobre Aviação e Turismo, algumas estatísticas muito interessantes foram reveladas sobre o crescimento da aviação comercial na China, especialmente para viagens internacionais. 

Estes dados foram revelados pelo presidente da Associação de Aviação da China, além de vários executivos das companhias aéreas chinesas e nos ajudam a entender como chegamos a essa situação. Preste atenção a esses fatos:

  • Entre 2011 e 2018, a taxa média anual de crescimento do tráfego de passageiros nas rotas internacionais da China foi de 17%;
  • Existem quase 40 companhias aéreas domésticas, e as companhias aéreas chinesas voam mais de 5.000 voos internacionais por semana para mais de 170 cidades em mais de 60 países;
  • O setor de aviação internacional da China perde dinheiro há três anos, com uma perda de 3,1 bilhões de dólares) em 2018;
  • Um executivo da China Oriental revelou que, nas rotas intercontinentais em 2018, a receita unitária era inferior a 0,057 USD por quilômetro (cerca de 0,09 USD por milha); como ponto de comparação, a receita unitária da Delta por milha disponível é superior a 0,16 USD por milha; portanto, é quase o dobro.
Primeiro Airbus A350-900 da Air China

Oferta cresceu muito

A China é obviamente um mercado em crescimento maciço, com um grande número de turistas. À primeira vista, você pensaria que esse grande contingente de pessoas poderia levar a aviões cheios e uma indústria da aviação muito lucrativa, mas aconteceu o inverso, com a oferta crescendo muito mais do que a demanda, talvez pela falta de planejamento.

A concorrência entre as companhias aéreas do país chegou a um ponto crítico, onde nenhuma companhia aérea está obtendo um lucro significativo em rotas internacionais. O embate das empresas em vários mercados importantes, como o da Califórnia-China e o mercado da Austrália-Ásia, são dois exemplos de canibalização.

Embora a aviação tenha crescido a um ritmo significativo na China, as companhias aéreas do país avançam rapidamente adicionando capacidade excedente às rotas internacionais já ocupadas do país. Isso significa que as companhias aéreas continuarão a perder grandes somas de dinheiro até que o governo intervenha para regular preços e práticas de rotas das suas estatais.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.