Por que 15 empresas aéreas cancelaram pedidos do Concorde ao mesmo tempo, nos anos 70?

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Em inúmeras ocasiões ouvimos falar do Concorde e seus feitos históricos, mas pouco se fala sobre o porquê de a maioria das companhias aéreas terem desistido do jato supersônico no mesmo ano.

Concorde
A americana TWA tinha encomendado o Concorde em 1973 mas desistiu

O jato, que nesse ano de 2020 completou 51 anos de idade, sem sombra de dúvida foi o maior marco da aviação comercial a jato no século passado, sendo um símbolo de modernidade, evolução e de um futuro supersônico.

Apesar disso, seu custo proibitivo, além de muitos atrasos de projeto, fizeram com que apenas duas empresas aéreas operassem efetivamente o jato: a Air France e a British Airways.

Mas era grande a lista de empresas que queriam o Concorde, ou pelo menos sonhavam em ter o avião mais badalado do século em sua frota.

E esta lista nos leva a um número e um ano: 51 em 1973. Cinquenta e um foi o total de cancelamentos do Concorde apenas neste ano, antes mesmo do jato entrar em operação e muito antes de seu trágico acidente.

Segundo o site HeritageConcorde, que mantém viva a história do único jato supersônico de sucesso na aviação comercial, foram 16 as empresas que demonstraram intenção oficial de comprar o jato, mas desistiram. A maioria delas, em 1973. Veja a lista a seguir.

Pan Am

  • Contrato para seis opções de compra em 1963, subindo para oito em 1966, cancelou o contrato em 1973

Continental Airlines

Concorde
  • Três opções de compra em 1963 que foram canceladas em 1973

TWA

  • Opções de compra para quatro aviões em 1963, indo para seis no ano seguinte, sendo canceladas em 1973

American Airlines

  • Igual à TWA, com quatro opções de compra em 63, indo para seis no ano seguinte, sendo canceladas em 1973

Middle East Airlines (MEA)

  • Duas opções de compra em 63 e mais duas no ano seguinte, todas canceladas em 1973

Qantas

Concorde
  • Quatro opções de compra em 64, que nunca foram oficialmente canceladas

Air India

  • Duas opções de compra em 64 que foram canceladas em 1975

JAL – Japan Airlines

  • Três opções de compra feitas em 1965 que foram canceladas em 1973

Sabena

  • Duas opções de compra em 1965 que foram canceladas em 73

Eastern Airlines

Concorde
  • Total de seis opções de compra feitas em 1966 e 1967, canceladas também em 73

United Airlines

Concorde
  • Seis opções de compra feitas em 1966 e canceladas em 1972

Braniff

  • Três opções de compra feitas em 1966 e canceladas em 1973

Lufthansa

  • Acordo para três opções de compra em 1967 que foram canceladas em 73

Air Canada

Concorde
  • Quatro opções de compra em março de 1967, canceladas em junho de 1972

CAAC Airlines – China

  • Três opções de compra realizadas em 1972, sendo que duas foram canceladas em 1979 e a última em 1980

A razão dos cancelamentos

Tu-144 Concorde
Peças do Tu-144 acidentado em Paris © Bureau of Aircraft Accidents Archives

Como mostrado acima, 1973 foi um ano tão ruim para o Concorde quanto o do seu acidente em 2000 em Paris, que é amplamente documentado.

Isso ocorreu devido a muitos fatores. Os americanos abandonaram seus programas de aviões supersônicos (SST) e tinham pouca simpatia por um concorrente estrangeiro. Em seguida, um crescente movimento ambientalista se opôs ao desembarque do Concorde em Nova York por vários anos por causa dos temores do boom sônico, e o governo dos EUA aprovou regulamentos ambientais que prejudicavam o voo supersônico, tornando quase impossível operar no espaço aéreo americano sem extensas folgas.

Também não ajudou o fato de que, em 3 de junho de 1973, o SST da União Soviética, o TU-144, caiu durante o Paris Air Show.

Era domingo, último dia da feira, e o Concorde já tinha se apresentado, para deleite do público local. Em seguida, o Tupolev Tu-144, cópia soviética do Concorde, decola para sua demonstração.

Logo após a decolagem o Tu-144 subiu rapidamente para demonstrar sua alta performance que, segundo o piloto, era melhor do que a do Concorde.

Porém, logo após ter estabilizado a altitude a pouco mais de 1000 metros de altura, o Tupolev apontou o seu nariz para baixo e desceu em grande velocidade, perdendo o controle e se desintegrando em pleno ar.

Casas foram atingidas e, entre tripulação e residentes, foram 16 pessoas mortas, além de 80 feridas. O acidente chocou todos os presentes e causou um grande medo sobre voo supersônico, que ainda estava em testes na época.

O Tu-144 não quebrou a barreira do som e a principal teoria é que um caça francês Mirage III teria chegado perto de mais para fotografar o Tupolev, o que teria assustado os pilotos soviéticos e causado o acidente.

Mesmo assim, o acidente levantou pavor nas empresas aéreas e passageiros. Tanto que mesmo a Air France e a British Airways não aumentaram o número de pedidos depois do acidente.

Mas a maior dificuldade era puramente econômica. O ano de 1973 assistiu à guerra do Yom Kipur, quando Israel atacou uma força de invasão árabe e, em retaliação, os estados da OPEP impuseram uma série de embargos de petróleo contra o Ocidente. Isso elevou os custos de combustível aéreo, e os preços das passagens do Concorde também subiram.

Então, por que duas companhias aéreas voaram com o Concorde? Porque eram empresas nacionais e não tinham escolha no assunto. Os governos disseram que voariam com o Concorde, então elas os voaram. Exigiu resgates e subsídios na década de 1970 e início dos anos 80, mas no fim o Concorde teve um lucro surpreendente.

Obviamente, esse lucro não esperava devolver o dinheiro gasto pelos governos britânico e francês. Os 14 aviões que voaram não poderiam recuperar os custos de pesquisa e desenvolvimento que haviam aumentado de um montante inicial de £ 70 milhões para £ 1,3 bilhões em dinheiro da década de 1970.

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Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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