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Por que, mesmo maior, o Boeing 747-8 leva menos passageiros do que o antecessor?

O “já não mais produzido” Boeing 747-8i é o maior dos Jumbos de passageiros já feito, mas, apesar de ser maior, sua capacidade máxima é menor do que o seu antecessor, o Boeing 747-400.

Boeing 747-8i em aproximação © emperornie

A última unidade do 747-8I de passageiros foi entregue em 2017 para a Korean Air, marcando o fim de uma versão que não teve, nem de longe, o apelo comercial das anteriores do clássico jumbo. Desde então, apenas jatos cargueiros têm sido entregues.

Apesar da última versão ter “mantido a pose” dos anteriores, ela chegou num momento em que aviões quadrimotores muito grandes já não estavam mais no radar das empresas aéreas, as quais buscavam eficiências operacionais nos bimotores, cada vez maiores e mais confiáveis.

No entanto, um detalhe levantado por um leitor chamou a nossa atenção: apesar de o 747-8i ser 6 metros maior que o 747-400, ele tem certificação para levar 55 passageiros a menos. A informação causa estranheza, mas é real e consta dos documentos de certificação do modelo que podem ser conferidos aqui.

O valor no documento de certificação é o máximo que ele pode levar, baseado na capacidade de evacuação da aeronave em determinado tempo, utilizando apenas uma parte das saídas de emergência.

Mas, se o avião leva menos pessoas, por que a Boeing então aumentou-o na nova geração?

Boeing 747-400 © Marvin Mutz

Na época de lançamento do 747-400, no final dos anos 1980, as viagens aéreas se popularizavam como nunca com a desregulamentação da aviação, e o Jumbo vivia sua era de ouro, levando mais passageiros que qualquer outra aeronave. Para otimizar ao máximo, a Boeing certificou o jato para até 660 passageiros, e para isso utilizou as maiores portas/saídas disponíveis no mercado, a do tipo A.

Este tipo de porta deve ter ao menos 1,06 m de largura por 1,82 m de altura, segundo a FAA, responsável por certificar inicialmente todos os Jumbos. No 747-400 são 5 pares deste tipo de porta, totalizando 10.

Já no 747-8i são 4 pares do tipo A e um par do tipo C, que é menor, e deve ter 76 centímetros de largura por 1,21 m de altura. Estas portas do tipo C são as primeiras da aeronave, ficando bem na frente.

Vale destacar que, no segundo andar da aeronave, a configuração é a mesma entre os modelos, mantendo a capacidade máxima de 110 passageiros no piso superior.

Mas por que motivo a Boeing trocou uma porta? São vários, mas os principais deles envolvem reforço estrutural e falta de necessidade.

As portas, assim como janelas, são cortes na fuselagem da aeronave, e quanto maior e em mais quantidade, acabam “enfraquecendo” a estrutura como um todo, necessitando de reforço, que vem na forma de um peso extra.

Esta porta maior era mantida no modelo antigo porque o gasto para ter e certificar ela era retornado em clientes satisfeitos, já que valorizaram uma altíssima capacidade no avião.

Avião Boeing 747-400F Jumbo Jet British Airways
Boeing 747-400 | Imagem: British Airways

Os tempos mudaram e as pessoas passaram a preferir fazer voos o mais diretos possível, e as aéreas buscaram por aviões “um pouco menores” para incluir em diversas rotas que antes não existiam. Considerando o fato desses jatos, bimotores em sua larga maioria, serem mais modernos e eficientes, o 747-8I já nasceu sem grandes perspectivas de venda, igual ao seu concorrente A380 da Airbus.

Outro ponto é que o 747-400 era utilizado em rotas de alta densidade no Japão, na configuração chamada de 747-400D. Nesta versão sim o Jumbo levava até 660 passageiros em apenas um voo, e inclusive janelas extras foram instaladas no segundo piso, no local onde ficava a galley (cozinha) da aeronave, dispensável em voos curtos.

Este tipo de operação hoje não existe mais para o Jumbo, já que o último 747-400D se aposentou em 2014, e não foi substituído por uma versão especial do Boeing ou outro avião, mas sim por aviões menores e mais econômicos, como o 787 Dreamliner e o Airbus A350XWB.

Logo, não ficou interessante para a Boeing manter um número maior de grandes saídas/portas de emergência, já que seus poucos clientes do 747-8i não colocam mais que 400 pessoas no jato, bem abaixo do limite apenas do primeiro piso.

Por isso, a Boeing economiza na certificação, trazendo redução de custo e mais simplicidade ao antigo projeto, e também não deixa de atender nenhum de seus clientes.

Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A