Por que a Azul não deve entrar na Star Alliance

ANÁLISE

Após a paralisação da Avianca Brasil e a falência cada vez mais próxima, as especulações da possível entrada da Azul na Star Alliance voltaram a surgir, explicamos por que isso não é plausível hoje.

Nos últimos eventos celebrando a chegada do Airbus A330neo na frota da Azul Linhas Aéreas, os executivos foram questionados sobre a possível entrada da empresa na Star Alliance, a maior e mais antiga alianças de aéreas do mundo.

Em entrevista ao Panrotas, o CEO da Azul John Rodgerson declarou que não é necessário: “Ser membro da Star Alliance traz benefícios para ambos os lados, mas a Azul não depende da entrada em qualquer aliança para ganhar mercado ou para ter conectividade. Nós já temos conectividade graças as parcerias que mantemos com United, Copa e TAP”.

Esta mesma proximidade com a TAP, através do fundador Neeleman, com a United, que é sócia na empresa, além de acordos com Turkish e Copa são os principais geradores de rumor, mas explicaremos por que não deve acontecer ao menos por agora.

HUB

A ideia da Star Alliance, assim como qualquer outra aliança/parceria, é criar facilidades para os passageiros através das aéreas membro, fidelizando os mesmos.

A aliança já falou abertamente que o seu hub no Brasil é em Guarulhos. Já o da Azul é em Viracopos. Apesar da crescente presença da Azul no GRU Airport, ainda é algo limitado e focado a atender passageiros de São Paulo, além de algumas conexões via United/TAP/Turkish/Copa.

Outro ponto é o terminal 1, que é mais precário e, principalmente, é distante do terminal 3 onde a Star Alliance é mais forte.

Categorias TudoAzul

Para o passageiro que voa bastante, ter um nível alto num programa de fidelidade de uma aérea Star Alliance é algo bem vantajoso: quase todo aeroporto grande possui alguma sala VIP de uma aérea membro, além de filas prioritárias para imigração e segurança, como mostramos em Zurique.

Estes benefícios são para a categoria GOLD da Star Alliance, um clube bem seleto pelos altos requisitos de milhagem, algo que contrasta com o da Azul.

É visível o alto número de clientes TudoAzul Diamante, a mais alta categoria do programa. Por vezes a fila de check-in e embarque da categoria é maior que a fila regular ou de prioridade por lei.

Isto provavelmente não iria ser muito agradável para a Star Alliance. O número de clientes Gold iria disparar da noite para o dia.

Atualmente a sua sala VIP em GRU já fica bem cheia nos horários de pico (final da tarde/início da noite). Ter muitos clientes significa maior gasto com mimos, upgrades e benefícios. Neste caso o gasto é também dividido por outras empresas fora a Azul.

Para contornar isso seria necessária a criação da categoria TudoAzul Ouro, com requisitos de entrada mais altos, o que certamente iria desagradar os membros da categoria Diamante e Safira.

Destinos

A falta de conectividade da Star Alliance para Argentina e Chile foi um dos motivos (se não o principal) para que a Avianca Brasil iniciasse voos para Santiago e que sua irmã argentina anunciasse voos entre São Paulo e Buenos Aires.

Voltando ao assunto de HUB citado acima, a exigência de conexões internacionais amigáveis com as outras aéreas membro é forte, e a Azul não conseguiria entregar isso em GRU.

Custos

O que nos traz para o motivo chave para a entrada na Star: as exigências.

A primeira é ter o sistema de reserva Amadeus: é o melhor para gerenciar reservas, atendimento no check-in e despacho, mas também é de longe o mais caro.

Outra é o padrão de atendimento: você talvez não tenha reparado, mas todos os funcionários Star Alliance (como são chamados os trabalhadores das empresas membro) têm um padrão de atendimento e uniforme.

Sempre é terno completo para os homens e “terninho” para as mulheres. A aliança exige que um bom número de funcionários seja fluente em inglês. O atendimento ao cliente das categorias Silver e Gold tem que ser impecável.

Além disso parte do treinamento inicial do funcionário da empresa engloba horas falando da Star Alliance, suas políticas, regras e padrões. Não é à toa: a Star faz auditoria em quase todos os aeroportos de suas membros.

Outro ponto é o atendimento de alternados. Caso um voo de uma aérea membro alterne para um aeroporto onde esta aérea não opera, por obrigação a empresa membro da Star Alliance que opera no aeroporto deverá atendê-lo e dar assistência.

Exemplo: voo da Ethiopian Airlines alterna Belo Horizonte-Confins, caso a Azul seja membro da Star, os funcionários da mesma terão que dar apoio à aeronave, se necessário desembarcar os passageiros, fazer acomodação em outros voos, hoteis e etc.

Vale lembrar que o próprio German Efromovich, que comanda(va) as Aviancas junto com o seu irmão José, falou sobre custos x receitas relacionados à Star em uma entrevista de 2016 ao blog Gaúcho Spotters.

Gaúcho Spotters: E a entrada da empresa na Star Alliance fez muita diferença?
Efromovich: É… em termos institucionais, sem dúvida. Em termos de receita, fez alguma, mas não algo significativo. Pôs a empresa junto com a irmã colombiana e nas grandes ligas, um reconhecimento internacional. Mas em termos de resultados ela teve pouquíssima influência.

Gaúcho Spotters

Serviço de Bordo

Outro ponto da exigência de padrão mínimo de atendimento é o serviço de bordo. Algo que a Azul se destacou pela variedade e criatividade dos snacks, mas que vai na contramão da aliança.

Com exceção da United (que por ser fundadora acaba não seguindo tantas regras da aliança como o sistema Amadeus) todas as outras empresas aéreas servem algum tipo de lanche quente durante os voos, mesmo que curtos.

Seria algo para se mudar na Azul e que iria contra a estratégia e cultura da própria empresa.

Uma opção: Connecting Partner

Como muitas das coisas que citamos geram problemas, custos e mudanças, ainda existe uma opção viável para a Azul “entrar” na aliança.

Aí vem o modelo Connecting Partner da Star Alliance, estreando pela chinesa Juneyao Airlines.

Este modo permite que aéreas regionais ou com modelo de negócio de baixo-custo (como a Azul) tenham conexões comerciais completas com três ou mais membros da Star Alliance, porém não com todas os 28 membros (caso da Azul novamente).

Os privilégios para os clientes Silver e Gold (de qualquer dos 28 membros) são mantidos em sua maioria, porém apenas se o trecho envolver uma aérea da Star e esta for membro.

Exemplo: passageiro Gold da Lufthansa viajando Frankfurt – São Paulo – Vitória terá embarque prioritário na Azul no último trecho, assim como duas bagagens extras, além de preferência na lista de esperar para antecipação e etc. Mas se ele voar o trecho Brasília – Viracopos com a Azul, não terá esses benefícios.

Vale lembrar que os benefícios citados acima são os padrões Gold da Star, mas a Connecting Partner não é obrigada a manter exatamente os mesmos benefícios, variando caso a caso.

Outro ponto diferente é a pontuação: o mesmo passageiro acima pode pontuar num voo Chicago – Tóquio com a United Airlines, já num trecho Guarulhos – Vitória ele não pontua a não ser que a Azul tenha parceria de milhagem com a Lufthansa.