Qatar Airways recebe cinco Boeing 787-9 envolvidos em entrega “fake” em dezembro

A Qatar Airways teve a entrega final de seus cinco primeiros B787-9 (A7-BHC, A7-BHD, A7-BHE, A7-BHF e A7-BHG) na última semana. Esses são os mesmos aviões envolvidos numa vergonhosa entrega “fake” que ocorreu nos últimos dias do mês de dezembro.

Qatar

Em meio à enxurrada de notícias relacionadas com a pandemia do novo coronavírus, a entrega dos cinco Dreamliners ficou quase sem notícia, mas a falta de aeronaves nos radares facilitou a identificação dos voos, que foram feitos diretamente de Victorville, no deserto da Califórnia, para Doha.

Estas mesmas aeronaves estiveram envolvidas numa duvidosa entrega “fake” ocorrida nos últimos dias do mês de dezembro do ano passado, quando sete Boeing 787-9 voaram vazios dos Estados Unidos para o Qatar para serem imediatamente devolvidos sob alegações de que seu interior ainda não estava pronto.

Atrasos da Boeing e “gol de mão”

Parece um tanto bizarro pensar que sete aviões de 63 metros e mais de 160 toneladas cada um precisariam atravessar o mundo para que então se descobrisse que seu interior ainda não estava pronto. Ao invés de queimar 120 mil litros de combustível por avião, bastava uma pequena equipe de inspetores da Qatar Airways se deslocar até os EUA para verificar o “erro”.

Esse fato aconteceu nos últimos dias de dezembro de 2019 e falamos dele aqui. Não é fantasia pensar que a decisão teve outros embasamentos menos inocentes, provavelmente vinculados ao atingimento de metas para fins de pagamento de bônus dos executivos e demais funcionários.

Duas das cinco aeronaves chegaram a Doha no dia 2 de abril – Imagem FR24

Lembrando que, naquela época ainda era o antigo CEO quem estava no comando da empresa e o histórico de suas ações resultaram num escândalo ético após dois acidentes fatais com o 737 MAX, na pior crise da história da Boeing e em sua demissão – ainda que com um bônus bem gordo no bolso e poucas recompensas aos familiares dos mortos.

Por que entregar e pegar de volta

Uma das premissas para reconhecimento de receita no balanço, sob as luzes do International Financial Reporting Standards (IFRS), é a entrega do produto ou serviço, com termos claros estabelecidos em contrato.

Pense no seguinte exemplo: mesmo que o produto (Boeing 787) estivesse totalmente pago, a empresa (Boeing) somente poderia contabilizar o valor como resultado no balanço depois que o produto fosse entregue. Esse mecanismo existe globalmente para evitar fraudes contábeis. Obviamente, há algumas exceções, mas essa matéria não vai entrar numa seara contábil tão densa.

Desta forma, para reconhecer a receita e bater a meta em 2019, a Boeing precisava que os aviões fossem entregues em 2019. Por isso que, presume-se, a entrega aconteceu nos últimos dias do ano. E como a contabilidade não retroage no mesmo momento em que a Qatar “decide” devolver as aeronaves, então a Boeing continuou com essa receita considerada no balanço do ano passado.

Desconhecemos as leis americanas, mas em alguns países tal conduta pode ser considerada crime. No caso das empresas, uma conduta como essa abre brecha para fraudes contábeis, por isso que em empresas sérias, esse tipo de prática é coibido por políticas rígidas.

E por que a Qatar não recebeu antes

Esses aviões estão prontos há muito tempo (meses) e, inicialmente, a companhia aérea do Qatar esperava começar a operá-las ainda em 2019. No entanto, elas acabaram retidas nos EUA devido a, pasme, atrasos relacionados à instalação de seus novos assentos da classe executiva QSuite. Ou seja, não deveria ser uma surpresa que as cabines não estavam prontas.

Apesar das cabines já estarem instaladas em alguns B777-300ER, A350-900 e A350-1000, a versão do Boeing 787-9 foi ligeiramente alterada devido à fuselagem de menor diâmetro.

Ainda há duas unidades prontas esperando o traslado de Victorville para Doha, que deve ocorrer nos próximos dias. A encomenda total da Qatar é de 23 aviões do modelo.

Carlos Ferreira
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

Veja outras histórias