Relatório indica erro na posição dos passageiros do Boeing 737 da flybondi que bateu a cauda na pista

Segundo informações do relatório preliminar de investigação de um incidente com um Boeing 737 da flybondi, um erro com a distribuição dos passageiros nos assentos da aeronave pode ter sido a causa de um tail strike durante a decolagem.

flybondi 737-800 LV-HQY Tail Strike
Fato da traseira do 737 mostra a marca do impacto no inferior da fuselagem traseira

Tail strike (batida de cauda) é o termo técnico dado ao caso em que a aeronave raspa a parte inferior traseira da fuselagem na pista durante um pouso ou uma decolagem.

A situação indesejada pode ser causada por diversos fatores, como uma ação exagerada do piloto ao erguer demais o nariz da aeronave, ou uma distribuição errada de peso ao longo da aeronave, entre outros.

Neste caso do 737 da flybondi, o relatório provisório da JIAAC (Junta de Investigación de Accidentes de Aviación Civil) divulgado nessa semana aponta que os passageiros concentraram-se na metade traseira da aeronave, o que pode ter causado uma concentração excessiva de peso na cauda, levando ao impacto.

Detalhes do caso

O jato da matrícula LV-HQY estava decolando de Iguazu, na Argentina, no dia 16 de julho do ano passado, quando ainda no início da corrida de pista o nariz levantou-se antes do comando dos pilotos e a cauda raspou no chão. O comandante rejeitou a decolagem e retornou para o pátio.

flybondi 737-800 LV-HQY Tail Strike

O relatório indica que o despachante de voo (a pessoa responsável por calcular a distribuição de peso) calculou e forneceu uma folha de carga que o comandante aceitou, indicando que o GC (centro de gravidade) estava em 22,2%. O peso de decolagem e o GC estavam dentro dos limites permitidos.

No entanto, as investigações apontaram que a distribuição real de passageiros em toda a cabine não coincidia com os documentos do despachante. Quase todos os passageiros sentaram-se na seção traseira da cabine, o que moveu o CG para cerca de 38%, fora das limitações de decolagem permitidas.

flybondi 737-800 LV-HQY Tail Strike distribuição
Posição dos passageiros em vermelho – Imagem: JIAAC

Uma simulação da Boeing com base nos dados do FDR (equipamento que grava os dados da aeronave) estimou o CG próximo a 40%, indicando que pode ainda haver mais algum fator errado nos cálculos.

Após casos de tail strike, a aeronave precisa passar por uma inspeção estrutural na região do impacto, para que seja avaliada a extensão dos danos e o tipo de reparo necessário.

Veja o caso semelhante ocorrido no mês passado com um Airbus A320neo da Azul, em que a aeronave precisou ser levada para reparos no Rio de Janeiro:

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.