“Rezo para que eu esteja errado”, diz ex-engenheiro da Boeing sobre falha no 787

Um ex-engenheiro da Boeing afirmou que uma falha em um sistema do 787 Dreamliner poderia colocar em risco a saúde de passageiros que viajam no moderno widebody da fabricante, informou a BBC nesta quarta-feira, 06 de novembro.

Avião Boeing 787-10
Boeing 787-10 – Imagem: Boeing

John Barnett, que trabalhou como engenheiro de qualidade da empresa, disse à BBC que testes realizados com o 787 sugerem que até um quarto dos sistemas de oxigênio da aeronave pode ter defeito e não funcionar quando necessário em uma emergência.

Ele também afirmou que as peças defeituosas do sistema foram deliberadamente instaladas nos aviões da linha de produção de uma das fábricas da Boeing.

Segundo a BBC, a Boeing nega suas acusações e diz que todas as suas aeronaves são construídas com os mais altos níveis de segurança e qualidade.

Aposentadoria e processo contra a Boeing

Barnett trabalhou na Boeing por 32 anos, até sua aposentadoria por motivos de saúde, em março de 2017. Ele foi gerente de qualidade na fábrica da Boeing em North Charleston, na Carolina do Sul (EUA), desde 2010 até a aposentadoria.

O engenheiro está atualmente tomando medidas legais contra a Boeing, que ele acusa de denegrir sua imagem e dificultar sua carreira por causa dos problemas que ele apontou, levando a sua aposentadoria.

A resposta da empresa é que ele tinha planos antigos de se aposentar e o fez voluntariamente. Ela afirma que “a Boeing não afetou negativamente a capacidade de Barnett de continuar na profissão escolhida que ele deseja”.

De acordo com Barnett, a pressa de retirar novas aeronaves da linha de produção significou que o processo de montagem foi acelerado e a segurança comprometida. A empresa nega isso e insiste que “segurança, qualidade e integridade estão no centro dos valores da Boeing”.

Problemas nos sistemas de oxigênio do 787

O engenheiro contou à BBC que, em 2016, já cinco anos após o modelo entrar em serviço nas companhias aéreas, ele descobriu problemas com os sistemas de oxigênio de emergência, responsáveis por manter os passageiros e a tripulação conscientes se a pressurização da cabine falhar por qualquer motivo em altitude. Nessa caso, as máscaras de oxigênio devem cair do teto, fornecendo oxigênio ao viajantes.

Sem esses sistemas, os ocupantes de um avião seriam rapidamente incapacitados em uma descompressão repentina da cabina. A 35.000 pés (10.600 m), eles estariam inconscientes em menos de um minuto. A 40.000 pés, isso pode acontecer em 20 segundos. Danos cerebrais e até a morte podem ocorrer se a aeronave não descer rapidamente para uma altitude com níveis adequados de oxigênio no ar.

Embora eventos de descompressão repentina sejam raros, eles acontecem. Em abril de 2018, por exemplo, uma janela de uma aeronave da Southwest Airlines explodiu depois de ser atingida por destroços de um motor danificado. Um passageiro sentado ao lado da janela sofreu ferimentos graves e mais tarde morreu como resultado – os demais foram capazes de utilizar o suprimento de oxigênio de emergência e sobreviveram ilesos.

Motor Falha Avião Boeing 737 Southwest
Técnicos do NTSB (o CENIPA dos EUA) durante avaliação do motor do 737 da Southwest. Imagem: NTSB

Testes operacionais indicavam falhas

Barnett diz à BBC que, quando estava desativando sistemas que sofreram danos menores não importantes, ele descobriu que algumas das garrafas de oxigênio não estavam descarregando quando deveriam. Posteriormente, ele organizou um teste controlado a ser realizado pela própria unidade de pesquisa e desenvolvimento da Boeing.

Esse teste, que usava sistemas de oxigênio já vazios mas sem danos, foi projetado para imitar a maneira como funcionariam a bordo de uma aeronave, usando exatamente a mesma corrente elétrica que acionaria o gatilho do sistema. Ele diz que 300 sistemas foram testados, e 75 deles não funcionaram corretamente, uma taxa de falha de 25%.

Barnett diz que suas tentativas de aprofundar o assunto foram bloqueadas pelos gerentes da Boeing. Em 2017, ele reclamou ao órgão regulador dos EUA, a FAA, que nenhuma ação havia sido tomada para resolver o problema. A FAA, no entanto, disse que não poderia fundamentar essa alegação, porque a Boeing havia indicado que estava trabalhando na questão na época.

A Boeing nega

A própria Boeing rejeita as afirmações de Barnett. Ela admite que em 2017 identificou algumas garrafas de oxigênio recebidas do fornecedor que não estavam funcionando adequadamente. “Removemos essas garrafas da produção para que nenhuma garrafa defeituosa fosse colocada nos aviões e abordamos o assunto com o nosso fornecedor”.

Mas também afirma que “todo sistema de oxigênio de passageiros instalado em nossos aviões é testado várias vezes antes da entrega para garantir que esteja funcionando corretamente e deve passar nesses testes para permanecer no avião”.

“O sistema também é testado em intervalos regulares quando o avião entra em serviço”, diz o documento.

Problemas com cumprimento de procedimentos

Esta não é a única alegação levantada na Boeing em relação à fábrica da Carolina do Sul, no entanto. Barnett também diz que a Boeing não seguiu seus próprios procedimentos, com o objetivo de rastrear as peças durante o processo de montagem, permitindo a perda de rastreabilidade de vários itens defeituosos.

Fábrica linha produção Boeing 787
Linha de produção do 787 – Imagem: Boeing

Ele afirma que trabalhadores sob pressão chegaram a instalar peças abaixo do padrão em pelo menos um caso com o conhecimento de um gerente sênior. Ele diz que isso foi feito para economizar tempo, porque “a Boeing South Carolina é estritamente orientada pelo cronograma e pelo custo”.

Sobre a perda de peças, no início de 2017, uma auditoria da própria FAA confirmou as preocupações de Barnett, estabelecendo que a localização de pelo menos 53 peças “não conformes” era desconhecida e que elas eram consideradas perdidas. A Boeing foi condenada a tomar medidas corretivas.

Desde então, a empresa diz que “resolveu completamente as descobertas da FAA com relação à rastreabilidade das peças e implementou ações corretivas para evitar a recorrência”. Não fez mais comentários sobre a possibilidade de peças não conformes chegarem a aeronaves completas – embora os membros da fábrica de North Charleston insistam que isso não poderia acontecer.

Preocupação com a cultura da Boeing

Barnett acredita que as preocupações que destacou refletem uma cultura corporativa “voltada para velocidade e redução de custos em cada mínimo detalhe”. Ele afirma que os gerentes “não estão preocupados com a segurança, apenas cumprindo a agenda”.

“Com base em meus anos de experiência e histórico de acidentes de avião, acredito que seja apenas uma questão de tempo até que algo grande aconteça com um 787”, diz ele. “Eu rezo para que eu esteja errado.”

Será que as revelações do ex-engenheiro são apenas um ataque devido à disputa com a Boeing na justiça? Ou será que a empresa ainda tem sistemas defeituosos instalados nos 787? Qual sua opinião?

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.