Saiba o que houve na cabine do Boeing 767 após ter encostado a cauda na pista

Conforme acompanhamos poucos dias atrás, em 29 de agosto, um jato Boeing 767-300 cargueiro da empresa aérea canadense Cargojet Airways, registrado sob a matrícula C-GUAJ, foi filmado em uma ocorrência de contato da cauda com o solo quando decolava do Aeroporto Narita, em Tóquio, Japão, no voo de número W8-1328 com destino ao Aeroporto de Vancouver, no Canadá.

O momento em que fumaça foi vista saindo da cauda

A bordo estavam apenas os 2 pilotos, e durante a rotação para decolagem da pista 16R de Narita, a cauda da aeronave contatou a superfície da pista, emitindo uma nuvem de fumaça. A aeronave continuou para Vancouver, onde pousou cerca de 8 horas e 15 minutos depois (Caso você não tenha visto ou queira rever o vídeo do momento do contato, clique aqui para acessar).

O Ministério dos Transportes do Japão informou que o controlador de tráfego aéreo notou a fumaça do contato da cauda com o solo e solicitou ​​uma inspeção da pista, que revelou marca de cerca de 31 metros de comprimento e 15 cm de largura, com profundidade de 1 a 2 cm.

Além disso, uma das luzes da linha central da pista foi encontrada danificada, levando ao fechamento da pista por cerca de 90 minutos para substituir a luz e retorná-la a uma condição segura.

Depois do pouso no destino, a aeronave permaneceu no solo em Vancouver por cerca de duas horas e meia, e então continuou para o próximo trecho do voo W8-1328 para o Aeroporto O’Hare, em Chicago, EUA.

Agora, uma nova atualização sobre a ocorrência, divulgada pela autoridade de investigação do Canadá (TSB), apresenta os detalhes sobre o que ocorreu na cabine de comando do Boeing 767 entre o contato com a pista e o pouso em Vancouver.

Segundo o portal The Aviation Herald, o TSB reporta os seguintes pontos:

– Após a decolagem, a mensagem “R TAIL HYD VAL” na cor âmbar apareceu no EICAS (Sistema de indicação do motor e alerta à tripulação).

– O controlador de tráfego da Torre relatou aos pilotos a fumaça na cauda durante a rotação, antes de entregá-los para a frequência do controle de tráfego aéreo de partida.

– Após a retração dos flaps, os pilotos solicitaram o nivelamento a 10.000 pés (a altitude liberada era de 23.000 pés) para consultarem o QRH (manual de referência rápida da aeronave).

– A instrução do manual relacionada à mensagem que os pilotos receberam dizia “R TAIL FLT CONTROL SHUTOFF SWITCH MUST BE ON FOR FLIGHT“, indicando que o interruptor da referida válvula de controle deve estar na posição “ligada” durante o voo. Mas as válvulas de controle de voo no painel P61 indicavam tanto “ligada” em cor branca como também “desligada” em cor âmbar. O interruptor é protegido e diz “GND USE ONLY”, ou “uso apenas em solo”.

– Os pilotos então entraram em contato com o controle de manutenção da Cargojet por telefone via satélite. A sugestão de manutenção foi não fazer nada com a válvula de controle, já que outros sistemas que poderiam ter sido afetados em uma batida da cauda, como o sistema hidráulico e a pressão da cabine, pareciam normais.

– Os pilotos concluíram, após as conversas com a manutenção, que a falta da mensagem “TAIL STRIKE” (impacto de cauda) no EICAS tornava o voo seguro para o destino, portanto, decidiram prosseguir.

– Ao final do voo, antes de pousar em Vancouver e depois de estender o conjunto de trem de pouso, a mensagem “TAILSKID” apareceu em âmbar no EICAS (tail skid é um componente de indicação de impacto da cauda, localizado na parte inferior da mesma, como mostrado na imagem abaixo). As ações do QRH relacionadas a esta mensagem foram realizadas, e prosseguiu-se para pouso sem intercorrências.

– A inspeção pós-voo pela equipe de manutenção revelou que a tinta laranja no tail skid foi parcialmente removida, mas a indicação em sua haste não mostrou nenhum sinal de compressão. Assim, a aeronave foi devolvida ao serviço, com o reparo do tail skid aprovado para ser feito posteriormente, conforme permitido pela MEL (lista de equipamentos mínimos) da aeronave.

Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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