Sequestrador pediu aeromoça em casamento num dos casos mais misteriosos da aviação

Boeing 727 da TWA, mesmo modelo sequestrado em 1985. IMAGEM: Felix Goetting/Wikimedia

Em 1985, o sequestro do voo 847 da TWA chamou a atenção do mundo pelas características insólitas do caso. Os dois terroristas chegaram a manter reféns na aeronave por 17 dias, mataram um militar norte-americano e um deles se apaixonou por uma das aeromoças, chegando a pedí-la em casamento.

Em 14 de junho de 1985, um Boeing 727-200 da TWA, de matricula N64339, voava do Cairo, capital do Egito, para San Diego, nos Estados Unidos, com várias escalas no caminho. Durante a viagem, dois terroristas ligados ao Hezbollah, grupo extremista libanês, assumiram o controle da aeronave, que naquele momento tinha 139 passageiros e oito tripulantes.

Até então sem reivindicações claras, os criminosos desviaram o voo para Beirute, no Líbano, onde libertaram parte dos reféns em troca de combustível. O avião decolou novamente e seguiu para Argel, capital da Argélia, onde permaneceu sob o sol escaldante do deserto do Saara sem ar-condicionado, o que levou muitos a bordo a passarem mal. Por essa razão, os terroristas chegaram a libertar mais alguns passageiros.

O piloto John Testrake ao lado de um dos sequestradores no Líbano. IMAGEM: FAA/Wikimedia

Vai e volta

Foi apenas nesse momento que os sequestradores detalharam suas exigências: a libertação de centenas de libaneses das prisões israelenses, algo que o governo de Israel não pretendia atender. Durante o sequestro, os criminosos espancaram vários reféns e ameaçaram matá-los se suas reivindicações não fossem atendidas.

Mais tarde, o Boeing retornou para Beirute, local em que se presenciou a cena mais grotesca do caso. O passageiro Robert Stethem, 23, um jovem mergulhador da Marinha dos Estados Unidos, foi brutalmente espancado e morto pelos terroristas. O corpo do homem foi lançado da aeronave para o pátio do aeroporto libanês, em frente das lentes das câmeras de televisão e dos jornalistas que acompanhavam o sequestro desde o início.

No mesmo local, as câmeras filmaram quando homens fortemente armados entraram na aeronave antes de decolar mais uma vez de volta à Argel. Na capital argelina, mais 65 passageiros foram liberados, como parte das negociações. Depois de longo período, o voo retornou novamente a Beirute, onde permaneceu até 30 de junho. No ultimo dia do sequestro, os passageiros restantes foram transportados para a Síria, quando foram definitivamente libertados enquanto os terroristas fugiam.

Os dois sequestradores encapuzados, dentro da cabine da aeronave. IMAGEM: CIA-US/Wikimedia

Pedido de casamento

Em meio ao medo e a violência dos 17 dias de tensão, uma situação inusitada chamou a atenção das autoridades. Desde o começo, a comissária Uli Derickson assumiu importante protagonismo durante toda a crise.  

Derickson foi a primeira tripulante a ser abordada pelos dois sequestradores, que gritavam palavras em árabe. Ela tentou falar em inglês com eles, sem sucesso, e tentou algumas palavras em alemão. Um dos terroristas havia passado parte da vida na Alemanha e conhecia parcialmente o idioma, o que foi suficiente para que a comissária fosse oficializada como intermediária das negociações e única pessoa na aeronave a conversar com os bandidos.

A calma e a inteligência de Derickson pode ter salvado muitas vidas. Ela foi simpática com os sequestradores, servindo alimentos, conversando e os acalmando nos momentos mais tensos. Pediu orientações sobre o islamismo e fazia comentários alheios à situação. Segundo consta, foi ela que convenceu os terroristas a libertarem 20 mulheres e crianças em Beirute.

Sua simpatia foi tão vibrante, que em determinado momento, o raptor que falava alemão se aproximou dela e disse: “meu amigo gostaria de te pedir em casamento”. Derickson conta que ficou paralisada, com medo das consequências de qualquer resposta que desse. Por fim, disse: “veja bem, este não me parece o momento adequado”. O pretendente aceitou a recusa com resignação e não descontou a frustração em ninguém, talvez com a esperança de uma mudança de ideia no futuro.

Derickson estava no grupo de 65 reféns libertados em Argel, uma das paradas do avião sequestrado e foi considerada uma heroína. O caso foi retratado no filme O Sequestro do Voo 847 – A História de Uli Derickson, lançado em 1988.

Após a libertação, Uli Derickson é recebida por Ronald Regan, então presidente dos EUA. IMAGEM:NARA Archive

36 anos depois

O acordo para libertação dos reféns nunca foi divulgado, mas a fácil fuga dos terroristas chamou a atenção de todos. Algumas semanas depois, Israel libertou prisioneiros libaneses, exatamente como queriam os sequestradores, mas o país sempre negou que a atitude tivesse qualquer relação com o sequestro do voo TWA 847.

Segundo o FBI, pelo menos quatro pessoas estiveram envolvidas no sequestro. Em 1987, Mohamed Hamadi foi preso na Alemanha com explosivos na bagagem. Foi julgado e condenado à prisão perpétua, mas foi posto em liberdade condicional em 2006 e fugiu para o Paquistão para nunca mais ser encontrado. Outro extremista, Imad Mughniyeh, foi morto durante um atentado em Damasco, capital da Síria em 2008, sem nunca ter cumprido pena pelo caso do TWA. Hassan Izz-Al-Din e Ali Atwa permaneceram foragidos até hoje.

Em 2019, um libanês de 65 anos foi preso na Grécia sob suspeita de conexão com o caso. Ele foi libertado semanas depois por insuficiência de provas e uma suspeita de identidade trocada. O sequestro do voo TWA-847 segue muito mais cheio de perguntas do que respostas.

Os terroristas Mohammed Ali Hamadei, Hasan Izz-Al-Din e Ali Atwa estão até hoje na lista de mais procurados pelo FBI. Você os viu por aí? IMAGEM: FBI

Fontes de consulta: FBI, BBC News, agência Associated Press e History Channel.

Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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