Sindicato defende a destruição do DC-3 da VARIG e zomba de quem se sentiu ofendido

EDITORIAL
Após a lamentável destruição do DC-3 da Varig no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, um sindicato apoiou que se diz do lado dos profissionais da aviação defendeu essa bizarrice e ainda zombou de quem sentiu-se chateado com a situação.

DC-3 Varig
Douglas DC-3 da Varig antes de ser destruído

Em meio ao clima de chateação e revolta que tomou conta da comunidade aeronáutica brasileira nessa semana, depois que imagens de um dos mais importantes aviões DC-3 do mundo sendo picotado circularam na internet, um sindicato fez o desfavor de tentar defender o indefensável.

O clássico DC-3, que é de longe o avião que mais mudou a aviação do mundo e responsável pela popularização da mesma, estava em exposição a décadas no Rio de Janeiro, sendo que, nos últimos anos, a aeronave estava próxima ao hangar da TAP M&E, que um dia foi a Varig Manutenção e Engenharia.

O Douglas pertenceu à USAF e serviu na Segunda Guerra, só por isso já merecia estar em um pedestal. Além disso, o avião pertenceu à empresa do lendário Howard Hughes, outro transformador da aviação mundial. Depois disso, a aeronave foi para a Varig, que foi a maior empresa aérea do Brasil, e motivo de orgulho até hoje mesmo com o seu trágico fim.

Defendendo o indefensável

Mas, ainda assim, existem pessoas tentam defender a destruição de um dos patrimônios mais simbólicos da empresa, que inclusive era admirado e defendido por “variguianos”, que inclusive se posicionaram contra este ato, assim como qualquer pesssoa com o mínimo de preocupação com a cultura do país.

E esse não é o caso da Federação Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil (FENTAC), que é ligado à CUT. Em um post em sua página, a FENTAC afirma que o avião estava com corrosão em 100% da estrutura externa e que a RIOgaleão, que administra o aeroporto, estava cobrando aluguel da área onde o DC-3 estava exposto.

A cobrança seria feita contra a Massa Falida da VARIG, a EX Aviation Center, e pela suposta dívida, a massa se viu forçada a demolir a aeronave para devolver a área para a RIOgaleão – que nega.

O que disse a RIOgaleão

Porém, qual interesse teria a RIOgaleão em desocupar uma área remota no aeroporto, longe dos terminais, que já são subutilizados devido à baixa demanda e distante de qualquer área operacional?

Para tanto, a RIOgaleão emitiu a seguinte nota:

O RIOgaleão esclarece que a aeronave em questão estava localizada em uma área cedida pela concessionária, sobre a qual não havia gerência da administração do aeroporto. A EX Aviation Center, responsável pela massa falida da Varig, conduziu todo o processo de remoção. Mais esclarecimentos devem ser feitos com os responsáveis pela massa falida da empresa.

Em resumo, a RG não ligava para o DC-3 parado, porque já sabia que não ia receber qualquer dívida que tivesse com a EX e tão pouco iria atrapalhar os planos de modernização do aeroporto a curto ou médio prazo.

“Saudosistas”

Em tom jocoso, a FENTAC ainda chamou de “saudosistas” aqueles que se sentiram ofendidos pela destruição do histórico DC-3 e finalizou dizendo que a decisão foi acertada.

Porém a FENTAC além de mentir sobre a situação do DC-3, vive em um mundo paralelo em que acredita que a “preocupação da massa falida deve ser pagar os trabalhadores em primeiro lugar” como deixar o DC-3 do jeito que estava fosse gerar algum custo adicional.

Realmente a Varig deve centena de milhões para seus antigos trabalhadores, mas a realidade é que esse dinheiro nunca vai ser pago. E ninguém da Varig encostava naquele avião ou era contratado para isso, não tinham custos ali.

Outra desculpa rídicula utilizada pela FENTAC é o Varig Experience: “Portanto, a destruição do DC-3 da Varig, corroído e sem qualquer capacidade de utilização, não é um atentado à nossa história. Como já dito, existe um similar em Porto Alegre aberto para visitações.”

Nesta lógica vamos fechar os museus de história natural já que existe o Museu Nacional no Rio, ou fechar os museus da Força Expedicionária Brasileira porque já tem um em Curitiba. Não tem sentido lógico defender um ato assim.

Exemplo americano e nosso

Durante meses trabalhei junto a equipe de voluntários do USS Midway, o porta-aviões com maior tempo de serviço no mundo (atrás apenas do NAel Minas Gerais da Marinha do Brasil, que pela mesma lógica sindicalista, foi picotado).

USS Midway é o maior museu navio do mundo, se sustenta com doações e aluguel do seu deck para todos os tipos de eventos © Visit California

O Midway é simplesmente o maior navio museu do mundo, conta com 30 aeronaves no seu acervo, e é a atração mais visitada de toda a San Diego. Isto só é possível devido aos seus voluntários e doadores, e também com uma ajuda da maior marinha do mundo, a US Navy (USN).

Além do próprio museu, o time de restauração (que você pode facilmente identificar pela camisa e boné de cor verde) conta com um hangar na base de North Island, a maior base da USN na costa oeste.

A base é logo na proa do navio e lá existem ao menos nove aviões esperando para reforma, alguns a anos e que não se sabe se alguns realmente serão recuperados. Mas ao menos garantimos que eles estejam guardados em meio aos F-18 dos Marines também estocados ali.

A alegação de corrosão não cola: trabalhei na recuperação dos dois F-9 do museu além de iniciar a do Ganso (RA-5 Vigilante). Todos os três jatos serviram durante anos no mar e estavam expostos num museu de frente para a praia, mesmo assim a corrosão do sal marinho não os deixou irrecuperáveis. Agora o DC-3 que estava cercado de verde deu “PT”?!

MUSAL não pediu ajuda

É difícil não entrar no mérito do Museu Aeronáutico (MUSAL) não resgatar o DC-3 ou pedir ajuda para isso, e tão pouco do triste comentário de um membro ao dizer que “Tá com pena? Leva para você”. Um avião desse não é para ser tratado como bandido.

O exemplo do P-47D Thunderbolt restaurado em parceria com a HeliSul e a Galera Crescenti é a prova viva que existem pessoas que estão dispostas a ajudar, é só avisar. Mas o MUSAL simplesmente se eximiu e não comunicou a NINGUÉM que a aeronave seria picotada ou que estava sem condições de evitar o pior.

FENTAC nunca apoiou trabalhadores fora da Varig

Mas o que mais surpreende é o FENTAC se pronunciar nesta hora. Pessoalmente não me recordo de ver esta entidade sindical presente quando a Avianca Brasil deixou de pagar meu salário e de outro membro do portal no ano passado, tão pouco quando fomos demitidos sem receber nada. São mais de R$50 mil de dívida da Oceanair conosco, e que o FENTAC, CUT, SNEA ou qualquer outra entidade do gênero se quer importou.

E nada mudou hoje: recebemos foto nesta semana que a World Aviation, empresa terceirizada de uma grande companhia aérea em Guarulhos, não está pagando seus colaboradores desde novembro passado. Isto sem contar as dívidas da regional do interior paulista que comprou outra empresa, mas não pagou a recisão de diversos leitores e amigos. Nada de nota sobre estes casos, mas do DC-3 picotado existe.

Por fim, em nome do AEROIN lamento esta tragédia (que poderia ser evitada) contra a aviação nacional. Sem DC-3 estaríamos falando alemão, e pelos piores motivos possíveis. Mas para a FENTAC a dívida que nunca será paga, seria paga se o DC-3 fosse desmontado. Até onde eu saiba nenhum amigo variguiano recebeu um tostão nesta semana e o velho avião virou pó.

Depois perguntam ainda porque o número de sindicatos diminui a cada dia. Me pergunto inclusive se sindicato serve para algo no Brasil, porque para mim, meus amigos e para o PP-VBF não serviu, só atrapalhou.

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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