Valor diz que Embraer perdeu venda para o Irã por causa de Bolsonaro, mas é verdade?

Imagem: Divulgação / Embraer.

Recentemente, o jornal Valor Econômico publicou que a Embraer iria perder uma venda de 150 aviões por causa de um alinhamento pró-EUA por parte de Bolsonaro. Mas, independente de posicionamento político, será que isso faz sentido?

Para entender a história acerca do Irã, é necessário voltar em 2015, quando diversos países fecharam um Acordo Nuclear com o país islâmico, que concordaria em deixar analistas estrangeiros visitarem suas instalações nucleares para comprovar que não estavam enriquecendo urânio para produção de armas nucleares.

Na época, quem estava na Casa Branca era Obama, que sempre teve uma aproximação mais pacífica com o Irã e considerou uma das grandes vitórias do seu governo o fechamento deste acordo. Em compensação pela abertura e maior transparência na geração de energia nuclear, o Irã teve boa parte das sanções retiradas, facilitando os seus negócios no exterior, desde a década de 1970 bloqueados por duras sanções.

Com isso, era hora de ir às compras: apenas em 2016 a Iran Air, maior companhia aérea do país, comprou de uma só vez 98 jatos da Airbus e 107 da Boeing. A empresa, que era conhecida por usar aviões velhos, não via a hora de renovar e expandir sua frota.

Entretanto, não foi entregue nenhum avião da Boeing e foram entregues apenas três da Airbus. O que traz o nosso ponto sobre as informações equivocadas nas duas matérias do Valor Econômico, que você pode conferir clicando aqui e aqui.

Obama x Trump

Segundo o jornal, “o alinhamento do governo Jair Bolsonaro com os Estados Unidos e as sanções americanas vêm travando a possibilidade de vendas de dezenas de jatos comerciais da Embraer para o Irã.

A fonte citada pelo Valor são pessoas dentro do Ministério das Relações Exteriores, além do próprio Embaixador do Irã no Brasil, Hossein Gharib, que teria dito estar “com cartão no bolso” para levar os 150 jatos.

É incomum, mas não improvável, algum comprador não militar ir até o governo brasileiro para comprar jatos comerciais, já que a Embraer é uma empresa privada.

De qualquer forma, o foco acaba não estando em torno do governo brasileiro e iraniano. Independente dos alinhamentos de Bolsonaro, ou de quem tiver ocupando o posto de presidente, as vendas não podem ser feitas por motivo de força maior: as sanções dos EUA.

Tudo começou (e terminou) em 2017

Avião Airbus A330 Iran Air
Airbus A330 da Iran Air, que iria para a Avianca Brasil – Imagem: Clément Alloing

Para entender o porquê, é necessário ir para 2017, quando a Airbus entrega o primeiro jato da mega encomenda da Iran Air em tempo recorde: menos de seis meses após a compra, sendo que, em média, as companhias aéreas esperam três anos para receber um novo jato.

Os leitores mais antigos inclusive irão se lembrar da nossa matéria mega exclusiva, em que reportamos que os Airbus A330 da Avianca Brasil (até então estocados) iriam para a Iran Air. O motivo era simples, os europeus sabiam que a janela logo poderia se fechar, e que só receberiam o dinheiro caso entregassem os aviões.

A primeira entrega da Airbus foi exatamente nove dias antes do Inauguration Day de Trump, que é o evento de posse presidencial, realizado no dia 20 de janeiro de 2017.

Entre as metas do novo presidente para os 100 primeiros dias, estava a de colocar fim ao acordo nuclear firmado por Obama, que desde a campanha era mal visto por Trump.

Todos sabiam que Trump não é de blefar, e era necessário correr para entregar os aviões antes que as sanções voltassem e a janela se fechasse. E foi isso que aconteceu: a Airbus entregou apenas três aviões, sendo o A321 da matéria do Valor citada acima e dois A330 que iriam para a Avianca.

Inclusive um terceiro A330 iria para a Iran Air, mas a entrega não foi concluída exatamente pela volta das sanções.

As sanções

© Gage Skidmore

As sanções reimpostas por Trump dizem que nenhuma empresa americana pode vender algo para o Irã. Empresas estrangeiras que venderem seus produtos com componentes americanos para o Irã, sofrerão sanções.

Com isso, a própria Airbus ficou impossibilitada de vender os aviões, já que, apesar de serem construídos na Europa e contarem com aviônicos e motores locais, muitos componentes como processadores e pequenas peças são feitos nos EUA.

Outro problema com as sanções é que os aviões comerciais, em sua maioria, são encomendados por empresas aéreas mas quem paga são os lessores, que são bancos e financeiras que alugam os jatos para as companhias.

Com as sanções e sem confiança do mercado, as empresas aéreas iranianas não conseguem obter financiamento, e as fabricantes também não se arriscam em vender sem a empresa “dar o sinal” financeiro, como foi o caso da Boeing.

Para piorar a situação, o Departamento de Tesouro dos EUA classificou a segunda maior empresa do país, a Mahan Air, como entidade ligada ao apoio ao terrorismo. Com isso, qualquer fabricante que mantenha negócios nos EUA ou com parceiros americanos está sujeita às sanções, multas e acusação de apoio ao terrorismo.

A única exceção é para fornecimento de peças essenciais para a segurança de voo, visando manter aviões que já estão voando no Irã, como é o caso dos turboélices ATR.

Consequências

Com tudo isso, a Embraer fica sem saída: se vender para o Irã sofrerá sanções que vão interromper o fornecimento de componentes essenciais para as centenas de aviões voando nos EUA, será processada e, por ser empresa de capital aberto listada na Bolsa de Nova Iorque, sofreria dezenas de ações por parte de seus acionistas, além da própria Comissão de Valores Imobiliários (SEC) de lá.

Adicionalmente, os jatos brasileiros possuem motores, aviônicos e dezenas de outros componentes feitos nos EUA, que sofreriam corte de fornecimento. A situação não é diferente na concorrente Bombardier, que também utiliza muitas partes feitas nos EUA.

Com isso, fica claro que a inviabilidade de qualquer negócio da Embraer com o Irã (que segundo fontes na empresa não é ventilado nada desde 2017) advém das sanções dos EUA e pelo fato da fabricante brasileira ser uma empresa global, que não tem interesse em ter seu nome envolvido com acusações de parceria com organizações terroristas.

Entramos em contato com a Embraer, que reiterou em nota a questão das sanções:
A Embraer informa que não há nenhuma discussão com organizações iranianas, seguindo as diretivas de sanções e embargos a determinados países”.

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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