Veja como são as “janelas virtuais” da Emirates e como uma aeronave sem janelas poderia ser mais leve

O CEO da Emirates, Tim Clark, fez uma polêmica declaração na última semana sobre a pretensão de ter aeronaves totalmente sem janelas na companhia área no futuro.

O objetivo, segundo Clark, seria uma redução de até 50% no peso da aeronave devido à retirada das janelas, que seriam substituídas por telas que transmitiriam em tempo real as imagens do que ocorre ao redor da aeronave.

Janelas virtuais da Emirates

Apesar de soar estranha a possibilidade de ser obtida uma redução tão significativa, e mais estranha ainda a ideia de utilizar janelas "de mentira", a afirmação do CEO não se baseia em uma tecnologia do futuro, mas sim totalmente do presente. Isso porque a Emirates já utiliza suas chamadas "janelas virtuais" na Primeira Classe das aeronaves Boeing 777.

As suítes centrais da Primeira Classe, que não possuem ligação com a fuselagem da aeronave, possuem telas de alta definição conectadas a câmeras que estão posicionadas na parte externa da fuselagem.

No vídeo a seguir, o repórter da CNBC mostra, aos 10 segundos da gravação, a localização das câmeras externas. E ao longo de todo o vídeo você pode observar as janelas virtuais funcionando ao redor do repórter. Aproveite também para conferir todos os incríveis detalhes da luxuosa suíte da Emirates.

Mas seria possível uma redução tão grande de peso apenas pela remoção das janelas?

Não sabemos que informações Tim Clark possui em relação ao projeto da Boeing. Estaria chutando alto para pressionar as fabricantes a buscarem o desafio levantado? Ou estaria se baseando em estudos já em andamento?

Avaliando de maneira crua apenas para termos uma ideia superficial, podemos pensar da seguinte forma. A inclusão de janelas reduz a eficiência estrutural da fuselagem. Se a fuselagem como um cilindro fechado resistiria a esforços de magnitude 20 (o valor aqui é apenas para exemplificação, por isso sem unidade ou sem qualquer base em um projeto real), a adição de "furos" (leia-se janelas) reduziria essa resistência para 15, por exemplo.

Com isso, para que o projeto retorne à resistência de 20, faz-se necessária a utilização de materiais mais resistentes de maior espessura, ou seja, mais pesados – a não ser que a fabricante opte por aumentar bastante o preço do projeto com materiais que sejam muito leves mesmo com alta resistência.




Considerando a opção de não encarecer o projeto, a utilização de materiais menos custosos que aumentam o peso faz com que a fuselagem ganhe muito peso para voltar à resistência que precisa com o uso das janelas.

Então começam as demais consequências: mais peso faz com que seja necessária mais sustentação em voo, sobrecarregando a estrutura da asa, que também precisa ser projetada com mais resistência e…mais peso. Mais peso faz com que seja necessário um trem de pouso mais resistente e…mais pesado. Mais peso e a maior sustentação fazem com que sejam necessários motores mais potentes e…mais pesados. E vamos parar por aqui para não alongar demais, porque é bem longa a lista de consequências!

Portanto, apesar de não sabermos se é possível a redução tão significativa de metade do peso da aeronave levantada pelo CEO da Emirates, em uma avaliação superficial pudemos ver que são muitas as alterações decorrentes de qualquer mudança estrutural de um projeto aeronáutico, como a retirada de janelas.

Será que Tim Clark já tem informações mais precisas diretamente da fonte? E você, voaria somente com janelas virtuais?
 


 

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Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.