Voamos no Embraer Legacy 500, um dos jatos executivos mais rápidos do mundo

A convite da Embraer, estivemos visitando a linha da montagem dos Legacy 450 e 500 em São José dos Campos, e conhecemos a tecnologia aplicada e todo o desempenho durante um voo de performance a bordo do Legacy 500. Agora, nós é que fazemos o convite a você, leitor, para experimentar um pouco da história do projeto e desta incrível experiência de voo.




Numa tarde de 27 de novembro de 2012, o comandante Mozart Louzada Junior comandava o primeiro voo do Legacy 500. Era a primeira avaliação prática de uma aeronave que, desde sua concepção, já prometia estar acima dos padrões. De lá para cá, foram seis anos confirmando, com maestria, seu incrível desempenho em voo e suas tecnologias aplicadas, sendo ele o primeiro jato executivo da categoria midsize (médio porte) a utilizar a tecnologia full fly-by-wire.

O jato de 20 milhões de dólares tem duas linhas de montagem final, localizadas em São José dos Campos e na cidade americana de Melbourne, na Florida, esta inaugurada em 2016. A fuselagem e outros componentes do jato são fabricados nas unidades da Embraer no Brasil e em Portugal.

Na fábrica da Embraer de São José dos Campos, no mesmo hangar onde foram montados a nova versão dos lendários Bandeirantes em 1970, encontra-se a linha de montagem final do Legacy. Para que fosse possível a instalação do projeto, o hangar passou por uma reforma que o adequou para que 5 aeronaves possam ser montadas simultaneamente. Todo o processo de montagem pode variar de 6 a 9 meses, dependendo da necessidade de cada cliente, uma vez que o Legacy é altamente customizável.

Ao entrar no hangar, nos deparamos com a capacidade total em uso: cinco aeronaves sendo preparadas. Ricardo Santos, responsável pelas Comunicações Corporativas na Embraer, nos apresenta cada estágio do processo, desde a instalação de componentes atá a finalização das aeronaves.

A primeira aeronave da linha, ainda “só fuselagem”, recebe instalações internas e sistemas eletrônicos e aviônicos, como revestimento acústico, tubos, fios e o sistema full fly-by-wire.

Na segunda etapa, a aeronave recebe a junção de asas, trens de pouso, empenagem e seus motores Honeywell HTF500E fabricados nos Estados Unidos.




No terceiro estágio de montagem, a aeronave recebe outros sistemas de tecnologias e aviônicos, como instalação de radar e materiais compostos que auxiliam no acabamento da aeronave.

No quarto estágio da montagem, a aeronave recebe parte do acabamento interno, incluindo as janelas. Antes da última fase, porém, a mesma é levada para outro hangar onde é feita a pintura de acordo com o gosto do cliente. Por fim, volta para o hangar de montagem para o quinto estágio, momento da instalação de componentes que não podem ser contaminados com a pintura, e do acabamento final antes do primeiro voo.

Depois da visita à linha de montagem, fomos convidados a conhecer parte do desempenho em voo desta incrível aeronave, considerada um dos melhores jatos executivos do mundo na sua categoria. O Legacy 500 de matrícula PR-LKY nos aguardava para um voo de performance. Os comandantes Sydney Rodrigues e Eloi Bayer, juntamente com a comissária da Embraer Cláudia, nos recepcionaram na porta da aeronave.

Conhecendo a máquina!

Antes da decolagem, fui conhecer a cabine de comando futurista do Legacy 500. Um design extraordinário, com foco na ergonomia e conforto do piloto. A cabine de comando é limpa, e os side sticks (manches localizados nas laterais) permitem uma visão clara e sem interrupções dos grandes monitores.

O sistema de aviônica integrada Rockwell Collins Proline Fusion apresenta algumas das tecnologias mais avançadas disponíveis na aviação executiva atualmente. Elas incluem quatro monitores em alta resolução de 15” polegadas, sistema de visão sintética para segurança reforçada em situações de visibilidade limitada, planejamento de voo gráfico com sistema de gerenciamento de voo avançado (E2VS) para o aumento da conscientização situacional, sistema de gerenciamento da superfície (SMS), entre outros.

Ex-piloto da Varig, onde trabalhou por dezesseis anos, o comandante Sydney Rodrigues nos revela que o Legacy 500 foi concebido para ser o que os americanos definem como game changer – um modelo destinado a revolucionar a sua categoria, sendo ele o único jato em sua classe a fazer o upgrade de controles de voo convencionais para a tecnologia digital. A tecnologia full fly-by-wire, sistema eletrônico que dispensa o uso de cabos e transmite digitalmente aos flaps, leme e outras partes móveis do avião as ordens que o piloto dá pelo side stick na cabine, oferece proteção completa do envelope de voo, evitando que comandos excedam os limites estruturais do jato.

Alguns modelos de jatos executivos mais baratos utilizam alguns comandos através do sistema de controle digital, mas o Legacy 500 é o primeiro jato de médio porte com digitalização total dos comandos e também o único da sua categoria com cabine stand up, ou seja, alta o bastante para uma pessoa de 1,80 metro ficar de pé. A cabine do Legacy 500 é a maior em sua classe, com 1,83 m de altura e piso plano de 8,37 m de comprimento.




A configuração em que voamos tinha seis assentos posicionados um de frente para o outro, que se convertem em leitos totalmente planos, além de um assento lateral estilo divã para três pessoas (nas imagens abaixo, note que os dois assentos à frente do divã se posicionam como um leito). Segundo a Embraer, os assentos estão disponíveis com opção de aquecimento e massagem, suporte giratório e movimento lateral e para a frente.

A Embraer pensou em todos os detalhes para tornar a viagem de seus clientes uma experiência única a bordo do Legacy 500. Cada assento tem um compartimento com telefone, tomadas e entrada USB. O sistema de gerenciamento da cabine Ovation Select fornece vídeo em full HD, som surround opcional, e uma ampla variedade de opções de conectividade, incluindo conexão Wi-Fi e de dados de alta velocidade a 3.1 Mbs.

O Legacy ainda conta com toalete confortável e seu assento pode se transformar em uma poltrona extra com cinto de segurança. Um compartimento de bagagem bem espaçoso, localizado no fundo da aeronave, é acessível durante o voo através de uma porta no toalete.

Próximo à cabine de comando fica localizada a galley do Legacy 500, que se caracteriza como uma cozinha completa, incluindo: água quente e fria; uma gaveta de gelo grande; armazenamento para cristal, porcelana e prataria; máquina de expresso opcional, forno micro-ondas e refrigerador.

Rumo à estratosfera!

Convidados acomodados em seus assentos, o comandante Sydney passa o rápido briefing de como será nosso voo de demonstração. Ele informa que normalmente o voo entre São José dos Campos a São Paulo (Congonhas) dura em média 15 minutos, mas ele fará um “voo de performance” com 45 minutos de duração, semelhante ao que é oferecido aos clientes.

Cintos afivelados, seguimos rumo à cabeceira 15 do aeródromo. É hora de experimentar o voo do Legacy 500! Com potência máxima de seus motores Honeywell HTF500E e freios travados, o comandante acelera até a potência máxima e, quando solta os freios, o avião dispara pela pista com uma força incrível. Senti meu corpo entrando na poltrona, em uma sensação de tirar o fôlego de todos que estavam a bordo.

Em pouco tempo, ao olhar pela janela, já notava que rapidamente ganhávamos altitude. Em uma tela a minha frente o marcador de altitude subia rapidamente rumo aos 45.000 pés (13.716 m), que foram alcançados em poucos minutos. Foi uma experiência única e inesquecível.

Alcançada a altitude máxima de voo, o Comandante Sydney orienta para que olhemos pela janela e apreciemos algo que somente caças e aviões executivos com este desempenho podem proporcionar. Estávamos próximos à estratosfera, onde pudemos perceber sutilmente a curvatura da terra e, olhando para cima, notar que o céu azul ganhava uma tonalidade mais escura. Isto ocorre porque a estratosfera é a camada da atmosfera terrestre onde a luz solar sofre a dispersão que origina a tonalidade azul do céu. Acima da estratosfera, o céu já se torna negro como o universo profundo.

No vídeo a seguir, o Comandante Sydney explica um pouco mais sobre a tecnologia empregada no Legacy 500 e, na sequência, mostramos a sensação de estar a bordo dessa incrível máquina.




Voando a 45.000 pés ficamos acima dos jatos comerciais, que normalmente voam no máximo a 42.000 pés. O único jato comercial a voar nesta altitude foi o lendário Concorde. Considerado um dos jatos executivos mais rápido do mundo, o Legacy 500 pode voar a 1.024 km/h a essa altitude, otimizando o desempenho da aeronave com o menor consumo de combustível.

Um dos grandes diferenciais do Legacy 500 está no isolamento acústico de cabine. O ruído perceptível dos motores é bem inferior ao dos aviões comerciais. É possível conversar tranquilamente sem precisar elevar o tom de voz. O conforto proporcionado pela ótima pressurização da cabine é tão bom que é possível tirar até um cochilo enquanto estamos voando.

A todo momento a aeronave se manteve estável, mesmo com situações que foram criadas durante o voo para demonstrar o desempenho do sistema full-fly-by-wire. A cada comando executado com intenção de trazer grandes variações no voo, o sistema fazia a correção mantendo a aeronave estável e na rota.

O Legacy 500 é um projeto “clean sheet” (desenvolvido do zero, sem derivar de nenhum outro modelo anterior), portanto um importante desafio experimentado pela Embraer. Sua primeira unidade foi entregue ao cliente em 2014 e, hoje, o modelo se tornou uma das aeronaves mais confiáveis no mundo.

Projetado para operar em pistas curtas, precisa de 1.245 metros para decolar e 647 metros para pouso, com uma autonomia de 5.380 km, podendo ligar São Paulo à Venezuela sem necessidade de reabastecido. Em aproximação para Congonhas com mau tempo, a aeronave se manteve estável até o pouso suave no aeroporto da capital paulista.

Sem dúvidas a Embraer escreve mais um capítulo de destaque na história da aviação com seu jato full-fly-by-wire, e nós nos sentimos privilegiados com essa experiência incrível a bordo do Legacy 500.

 

Luis Neves

É agente de turismo e acompanha a evolução da aviação brasileira desde o final da década de 80. Fotografa tudo o que voa e tem uma das maiores coleções de fotos de aviação do Brasil.