Voo 171: na África, governo alerta sobre aéreas sem aviões oferecendo bilhetes

Imagem retirada do vídeo da Global Ghana

Muitas companhias aéreas nascem pequenas, com poucas aeronaves operando rotas regionais e sem espaço nos grandes aeroportos mundiais. Nascer gigante, com aeronaves de longo curso e voando para os principais hubs do mundo é algo bastante incomum, mas em Gana ninguém se engana, já que, ultimamente, suas empresas aéreas têm surgido com planos grandiosos de fazer “cair o queixo” de David Neelman. Exceto por um detalhe: elas não têm aeronaves.

VOO 171

De uns anos para cá, a Autoridade da Aviação Civil no país (GCAA, na sigla em inglês), vem alertando à população a não fazer negócios com as companhias aéreas Global Ghana Airways e Goldstar Air, por divulgarem voos inexistentes e operações fraudulentas. Mais que mais um possível caso de estelionato, as companhias aéreas movimentaram o setor empresarial e político do país africano, venderam passagens, homenagearam autoridades e até ganharam prêmios.

Segundo Ben Schlappig, do site One Mile At Time, a Global Ghana Airlines se coloca como uma companhia aérea com sede em Chicago que deveria voar entre Chicago e Accra, capital ganense. Em setembro 2017, começou a vender passagens para os Estados Unidos para voos previstos para outubro daquele ano. No entanto, sucessivos adiamentos frustravam aqueles que desejavam voar sem paradas para a cidade dos ventos. Até hoje, o voo inaugural não aconteceu.

O ponto, é que a companhia aérea não possuía, e ainda não possui, qualquer autorização das autoridades norte-americanas, ou mesmo e Gana, para operar. Mais do que isso, a companhia não possui sequer um avião para operar, seja próprio ou arrendado. A Global Ghana Airlines possui um site ativo, em que é possível até pesquisar por passagens, mas não mais comprar um tíquete. As informações mais recentes disponíveis sobre o início das operações são de 2017.

Até um vídeo promocional foi feito, junto com tantas outras peças. Tudo parecia que ia de vento em popa, mas agora o vento virou brisa.

A Goldstar Air

Esse caso é ainda mais pitoresco. A Goldstar Air nasceu há alguns anos e logo entrou para o Hall das empresas mais enroladas do mundo, como contamos anterioremente numa matéria bastante completa.

Com a promessa de voos para Baltimore, nos Estados Unidos, além de audaciosos planos de expansão dos voos para países nos cinco continentes, incluindo o Brasil, a companhia anunciou para clientes e investidores que os planos operacionais envolviam mais de 100 aeronaves, voando para 90 países do mundo. O sheikh da Emirates chegou a ficar preocupado.

Em seu site, que parece fruto de uma brincadeira de um grupo de adolescentes, a companhia informa que tem ambição de voar, logo na abertura, para 12 destinos nos EUA, Europa, Ásia, Oriente Médio e África. Também cita, superficialmente, um plano de negócios que estabelece os cinco primeiros anos como estratégicos para o desenvolvimento dos lucros. Mas ainda não informou quando pretende começar a voar. Disponibiliza, contudo, um mapa de rotas capaz de constranger até o mais sem vergonha dos políticos.

Com projetos tão ambiciosos, a companhia chegou a ganhar um prêmio como a companhia aérea mais promissora do ano em Gana, no Quality Excellence Awards, realizado no luxuoso Golden Tulip Hotel, em Accra.

Nesse mês de outubro de 2020, a empresa chegou a homenagear o presidente da Libéria, o ex-jogador de futebol George Weah, dando o nome dele para uma das suas aeronaves. O problema, é que tal aeronave não existe: a companhia ainda não adquiriu nenhum equipamento. Veja na imagem abaixo o momento em que a placa é entregue.

Tanto a Goldstar Air, quanto a Global Ghana Airlines, não são formalmente acusadas de crimes. Mas a GCAA acusa as duas companhias de práticas não idôneas, pois as duas se comportam como plenamente operacionais e buscam negócios com parceiros que podem ser enganados. O que se sabe é que elas ainda não estão nem perto de conseguir as autorizações necessárias para começar a voar.

Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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